Sean Connery nos deixou no último dia 31, aos 90 anos. A morte do ator carrega em si uma perda para o cinema, que se despediu de um astro maior, dono de 50 anos de carreira e mais de 94 papéis. Seu talento entra para a história inscrito em personagens como Jimmy Malone em Os Intocáveis, de Brian de Palma, que lhe rendeu o Oscar de melhor ator coadjuvante em 1988, à inesquecível atuação como o padre William de Baskerville em O Nome da Rosa (1986), pelo qual levou o BAFTA dois anos depois.

Sua contribuição maior à iconografia do século 20, porém, foi dando vida à primeira encarnação do agente secreto James Bond, em seis filmes da franquia 007. Muito mais que uma série, um definidor do estilo masculino em uma época.

Desde a cena de abertura de 007 contra o Satânico Dr. No (1962), o smoking sofisticado de Bond viraria uma assinatura repetida ao longo de toda a série e intérpretes do personagem, traduzindo não apenas seu DNA elegante, quanto os parâmetros de elegância de uma geração. A Savile Row foi a responsável pela peça – assim como a maioria das roupas usadas nos filmes de Sean Connery – depois de uma indicação pessoal de Ian Fleming, que fazia suas roupas por lá.

Hoje é história que o bom resultado do figurino nas cenas seria efeito de Connery, que dormia com o smoking a fim de absorver a essência de Bond – uma dica do produtor Albert Boccoli e absorvida pelo ator. O visual seria desconstruído nas décadas seguintes a Connery, com mulheres apropriando-se e questionando a elegância do tuxedo (a dizer: Diane Keaton em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e, mais recentemente, com Janelle Monáe).

Dr. No também seria responsável pela predileção de Bond pela alta relojoaria. O Rolex Submariner 6538 usado por Connery tornaria popular os modelos robustos, que pudessem oscilar entre a elegância de um paletó ou a um visual esportivo – como os combates bastante físicos do ator em cena. Enquanto o relógio de Bond mudaria com o tempo, até chegar nos Omegas de Draniel Craig, o 6538 permaneceria como uma assinatura de Connery.

James Bond, afinal, foi primeiro ícone do cinema a emprestar estilo ao casual. Antes de Connery, figurinos casuais eram comumente interpretados de maneira caricata – pegue a onda das camisas floridas de Elvis Presley em filmes como Paraíso no Havaí, ou o visual pretensamente aventureiro de Humphrey Bogart em Casablanca, por exemplo.

Em A Chantagem Atômica, Sean Connery mudaria o jogo. Seu calção azul seria uma assinatura atemporal de um estilo despojado, que, ao revelar um pouco mais do ator, faria sucesso imprecedente na época. Mais que isso, a peça seria relançada pela Sunspel, marca responsável pelo item, em 2012.

 

Mais que um short revelador, as camisas abertas de Connery como Bond também seriam uma assinatura, revelando um peitoral coberto que, para além de conquistar Pussy Galore, seria imediatamente associado à sensualidade masculina de uma década.

A colaboração maior de Connery para o estilo, porém, está na atuação charmosa de um herói cínico e aventureiro, repleto de falhas e desvios – o comportamento com as mulheres, o tabagismo e o alcoolismo de Bond, para ficar em alguns. Ainda assim, no mundo de 1960, uma renovação para o cinema, um herói acessível. O ponto alto é sua atuação em 007 Contra Goldfinger, considerada a melhor aventura de James Bond no cinema.

Desde seu lançamento, em 1964, ainda possui seu charme debochado e aventureiro, o equilíbrio exato de ironia, perigo e sedução – talvez por influência do diretor Guy Hamilton após dois filmes, trazendo sua influência permanente à franquia. Seria também a primeira “aventura americana” do agente britânico, um filme traduzido ao mercado internacional, para o que a participação e atuação de Connery foi fundamental.

A personalidade de Connery e Bond se confundem – e pedem, sim, uma revisão necessária. O Bond de 2020 não fuma, bebe menos e é, por vezes, superado pelas mulheres que os cercam. A robusta luta feminina contra os assédios, abusos e a favor da equidade salarial na indústria cinematográfica, com movimentos como o Me Too, colocaria em xeque a masculinidade tóxica, símbolo de Bond e mesmo de um Sean Connery – ele próprio acusado de ser um “péssimo marido” pela ex-mulher, a atriz australiana Diane Cilento.

Em 2020, toda a luta feminina contra o assédio e pela equidade de oportunidades mudou o cinema, que hoje as cota para papéis de 007 a cada lançamento da franquia. Uma série que só poderá sobreviver, bem como o estilo do próprio herói/ator, se posta à prova. Assim, abandonado os cigarros e trejeitos machistas de um personagem que não pode mais existir, restarão a inesquecível atuação e a contribuição iconográfica de um ator que fica para a história como o símbolo de uma época.

Fonte: gq.globo.com | Eduardo do Valle

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